quarta-feira, 16 de julho de 2014

2) AVISO: Qualquer semelhança com a primeira etapa é pura coincidência :)

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domingo, 13 julho
Albergue Goães - Ponte de Lima
18km

E se em vez de ter regressado a casa, depois dos 18km entre Goães e Ponte de Lima, tivesse ficado no albergue onde fui recolher o último carimbo do dia? Ai que vontade de não regressar... Uma vontade que até doeu mais durante a semana de preparação desta segunda etapa.

Confesso: estive para cometer a 'loucura' na véspera, de acrescentar à mochila, a roupa do corpo, o único ítem obrigatório que faltava adicionar à carga de 65L de capacidade máxima da minha mochila. 'Arrumava' a questão com uma semana de antecedência.

Chama-se a isto o quê? O Caminho a 'berrar' impacientemente pelo nosso nome? Ou antes falta do que fazer na vida? A segunda opção, não me parece plausível. Assumo, há longa data, sérios conflitos para gerir a variável 'tempo'... Se tenho ganho tempo extra, rapidamente arrumo uma tarefa para o ocupar. Mas poderia explicá-lo antes como uma ansiedade crescente em mandar tudo 'respirar fundo' e mudar de vida, pelo menos, durante uma semana.

Acho que voltei a encontrar o Caminho...

Neste segundo domingo, da segunda etapa, ainda estou à procura de uma semelhança com a etapa de estreia - as condições climatéricas, a companhia, o ritmo contemplativo, a partilha, o desenlace...
Por isso, por onde começar? Desta vez pelo início, mesmo :)

Fiz algo que detesto que me façam: deixei 'plantados' à espera os companheiros de peregrinada. Os que gentilmente se juntaram a mim, quando andei a apregoar 'aos sete ventos' que ía a Santiago. E encontrei-os à espera de sorriso rasgado, luminosos como o sol que brilhava no céu. Tive aí a certeza que um novo Caminho iria começar, ainda que com 15 minutos de atraso...

Paisagens que se repetiram, trilhos e quelhos com o mesmo verde luxuriante de há oito dias, monumentos que desejava visitar presencialmente, como a anciã (a pedir reforma da circulação rodoviária) Ponte de Goães... A verdade é que o espírito contemplativo não me acompanhou desta vez. Concentrei-me em desfrutar desse novo elemento que é a companhia humana na rota até Santiago, algo que me convenci ser a mais indomável e surpreendente das experiências do Caminho, quando sempre conceptualizei esta como uma missão solitária.

Com a 'lição' da primeira etapa assumi um compromisso de cumprimentar tudo e todos os que encontrar no Caminho, de forma mais calorosa que o habitual, como um abraço dado com palavras. "Bom dia, meu Senhor!" ou "Bom dia! Como tem passado? Rico dia!".

Numa das situações, aproveitei-me que um grupo de moradores estava reunido no caminho público e 'estiquei' a boa disposição: "Bom dia! Para Fátima, vou bem? É que venho de Guimarães...", garagalhada geral. Fui gozada toda a manhã pela forma, "com vontade!", como saudava as pessoas.

O caminho desde Braga até Ponte de Lima é 'deserto' de peregrinos santiaguistas, algo que demonstra uma necessidade profunda de trabalho de... marketing (?) que é urgente realizar. Como é possível que o mais antigo trajeto do Caminho não seja o mais usado, mesmo dentro das possibilidades do Português? Como não justificar com os recambolescos episódios de rivalidade entre a Sé de Braga e a a Catedral de Compostela um percurso que simbolicamente poderia representar um apaziguamento histórico entre as duas cidades mais relevantes e ancestrais da regiliosidade ibérica?

O livro escrito pelo conceituado historiador Vitor Manuel Adrião tem-me permitido aprofundar a (pouca mas essencial) cultura geral que eu tinha sobre os factos históricos de Compostela e de Braga. Talvez a principal razão que me tenha motivado a iniciar o Caminho na Sé tenha sido este. E se calhar é em busca deste misticismo que as 'Histórias mal contadas' ganham com o acumular dos séculos que me motivou a encetar o Caminho. Who knows?

As conversas, as gargalhadas, as estórias e os particulares momentos de convívio de que desfrutamos ficam guardados para um dia em que surjam em apontamentos soltos, relatados aqui no blog, assim como os momentos hilários, que incluiu o maior número de selfies por kms feitos, num percurso que (infelizmente) teve mais asfalto e menos sombra, que contacto com a natureza. 'Pormenor' facilmente superado à chegada à explendorosa vila de Ponte de Lima, pelo 'dolce fare niente' de um almoço na Tasquinha das Fodinhas (oi??!), com um inacreditavelmente dócil serviço de um rapazinho daqueles que apetecia meter ao bolso e levar para casa, transplantar num vaso ou colocar numa aquário e ir regando ou alimentando, como o nosso ser vivo doméstico preferido :D

E quando os peregrineiros de jornada tiveram que regressar a casa, restando eu para pedir carimbo no Albergue que fica do outro lado da Ponte, senti que o Caminho já não me escapa e que há uma dor para vencer até Santiago.

Para o próximo sábado ficou prometido um retorno à vila mais antiga do país para experimentar as camas do Albergue de Ponte de Lima, antecipando o primeiro arranque com o sol a nascer. Domingo, 20 de julho, Serra da Labruja, here we go! Oh Yeah!!



Léxico
'Peregrineiros': os companheiros da peregrinada.
'Peregrinada': caminhada em peregrinação.


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